Já dizia Simão Bolívar(1): “A América é ingovernável e quem tenta, ara(2) o mar”. A frase dele é bem simples de se entender: todos querem dominar o continente, mas ninguém consegue. É incrível a paixão que todos têm por ela, e as loucuras que se faz por isso.
Quando os espanhóis souberam da existência do “Novo Continente”(3) (porque este já era habitado), em 1492, foi o início de uma revolução e o despertar de muita inveja e interesse político-econômico: os vizinhos portugueses tascaram logo os olhos, ficando com um pedaço chamado Brasil. Franceses, ingleses e holandeses também seguiram a Oeste em busca de conseguir um pedaço desse chão. Desde então, os conflitos e os desenvolvimentos na área não pararam mais: um expulsando outro, numa luta entre nativos e invasores, além das uniões entre estes rivais para se tornarem independentes de quem os controlavam. De todos os processos de independência com as metrópoles européias, o Brasil é o que tem o caso mais inusitado: a declaração foi feita por um membro da família real. É por isso que não temos a cor vermelha em nossa bandeira. Não precisou derramar sangue, mas tivemos que arranjar muitas “verdinhas” (o que mais tem na bandeira) para pagar pelo reconhecimento de que éramos um país, naquele momento, e não mais uma colônia.
As terras que receberam o nome de seu descobridor, Américo Vespúcio, realmente atraíam a todos: pau-brasil, ouro, cana-de-açúcar, entre outras coisas. Cada um que conseguiu explorar um pedaço da América utilizou-a de maneira diferente: enquanto os ingleses transformaram-na em colônia de povoamento, os portugueses, por exemplo, em colônia de exploração, ou seja, só pegavam as riquezas naturais e mais nada. Quando resolveram aproveitar mais as terras, para que ninguém as invadissem, 30 anos depois, foi simplesmente para torná-la uma cadeia a céu aberto, pois numa “terra de ninguém” não se tinha muito pra onde fugir. Veja como é nítida a diferença de pensamento.
Desde sempre, o continente tem passado por profundas mudanças: já houve um rompimento claro com as metrópoles européias, ao tornar as colônias independentes, tudo em nome de um “esquerdismo” muito apreciado e verbalizado no século XXI. Os diversos governantes da América se utilizam de memórias e sonhos utópicos para manterem vivos no povo um desejo de liberdade e independência, mas infelizmente, o grande problema de quem gosta de poder é não saber se conformar com o que tem, sempre querendo mais e mais, e claro, governar sozinhos, sem a intromissão de quem lhes deu apoio.
Durante muito tempo, a esquerda foi rejeitada e combatida duramente por oposicionistas, porque isso representava um perigo ao império capitalista de muita gente que tinha medo de perder as regalias da desigualdade social, mas hoje, em pleno século XXI, tem sido vista com bons olhos e se disseminando pelo continente, já que a filosofia destra(4) não ofereceu os resultados esperados para uma grande maioria.
Os “esquerdistas” estão alcançado o poder, porém para que esse fenômeno pudesse se tornar uma realidade foi preciso aliar-se à direita ou então, adotar uma postura mais rígida na posição socialista. Só que o mais intrigante nisso é que: tem muitos líderes que adotaram uma falsa postura e estão se mostrando mais de direita do que no fundo querem aparentar.
Não faltam demonstrações de nações comunistas que atuaram de modo decepcionante - mesmo com os avanços econômicos a todo o custo – no quesito “do povo” mostraram que sua gente não tinha voz alguma para decidir o próprio estilo de vida.
Por muito tempo, um fanático administrou sua ilhazinha, resistindo por décadas às sanções externas, porém pagando um preço alto por privar-se dos mais diversos avanços tecnológicos e econômicos.
Tem um louco que segue a filosofia de outro louco que, em nome de sua fé e de seu ego, num ideal comum está restringindo cada vez mais os direitos do povo, coibindo a liberdade de imprensa e de expressão, ou seja, roubando a identidade de sua gente. É a mão esquerda mostrando mais habilidade que a da direita.
Busca-se uma identidade para o povo “latino”, inclusive nós brasileiros fazemos parte do grupo, embora o termo seja muito mais usado por povos de língua espanhola. Que identidade seria essa? Já começa pelo fato de os idiomas serem heranças do “Velho Continente”(5). A homogeneidade cultural que a América almeja é difícil, pois uma região onde cresceu com a miscigenação e domínio de um povo sobre o outro, as raízes se perderam, ou então tiveram que se adaptar à outras culturas, para não morrerem por completo (não são partes da Teoria da Evolução descrita por Darwin e Lamarck, mas estão bem próximas).
É companheiro pra lá, é companheiro pra cá, e nessa amizade toda um está ferrando o outro: primeiro, foi um irmão de luta que em nome do próprio governo tornou pública as empresas do colega, num gesto de invasão ou usurpação; o outro deu um calote. Quem tem irmãos assim não precisam de inimigos!
A América, em geral, está enfrentando uma nova era: muitos governantes querem num golpe ou numa consulta popular manterem-se no poder por mais algum tempo ou além do que suas constituições os permitem: um passo para a eternidade. Existem reações de todos os lados: tanto de quem apóia quanto de quem rejeita. Todos querem mandar no continente, mas ninguém jamais consegue, porque não sabem compartilhar a coroa.
De todos os lados o continente recebe olhares: tanto de quem está dentro quanto de quem está fora. Marcado por desigualdades econômicas, diversos povos americanos se rendem a oferecer mão-de-obra barata, dependem de tecnologia dos países mais desenvolvidos, e também são atrativos para os aventureiros do mundo do sexo, que não podem buscar estes tipos de serviços em seus respectivos países, já que lá as leis são severas e punem os praticantes.
Nesse processo todo existe um paradoxo: enquanto todos seguiam um ideal de direita, migravam para Oeste, com a vinda dos povos colonizadores, de escravos e depois, dos imigrantes. Agora, parece que ocorre o contrário: há uma forte inclinação para a esquerda, mas muitos estão seguindo para o Leste, ou seja, os povos daqui vão rumo à Europa em busca de melhores oportunidades de trabalho.
No fundo, as palavras de Simão Bolívar querem dizer muito mais do que se imagina: o fato de o continente ser ingovernável é porque não existe uma só América, e sim várias, cada uma com uma cultura diferente, várias línguas, diversas religiões e direções políticas etc. Não pode haver dois caciques numa mesma tribo. É como se dois presidentes ou reis governassem o mesmo país. Impossível de imaginar!!! Enfim, é possível compreender que se fazem todos os tipos de loucuras pra se governá-la, mas não para torná-la melhor, menos desigual e mais agradável aos que nela habitam.
(1) Simão Bolívar foi um general venezuelano, responsável direto ou indireto pela independência de vários países da América Latina no início do século XIX.
(2) Arar = “vtd e vti 1 Sulcar a terra com o arado; lavrar. Vtd 2 Sulcar as águas de; navegar. Vint 3 Trabalhar com dificuldade.”
Fonte = Dicionário Michaellis de Língua Portuguesa.
(3) Novo Continente ou Novo Mundo é o nome dado ao continente americano.
(4) Destra = “sf A mão direita.”
Fonte = Dicionário Michaellis de Língua Portuguesa.
(5) Velho Continente é a Europa.
Uma frase para pensar:
“O consolo para muitos capitalistas é que todos têm a mesma chance de enriquecer, enquanto que para muitos comunistas, ninguém jamais será rico.” (Autor: Diego Francisco; texto: “Capitalismo e Socialismo: Realidade e Utopia).
http://mundodimais.blog.terra.com.br/2008/08/03/capitalismo-e-socialismo-realidade-e-utopia/
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